2. O Feminino como centro da liderança ressignificada - jun.2020 (Imagem de David Bruyland por Pixabay )
O FEMININO COMO CENTRO DA LIDERANÇA RESSIGNIFICADA
22 de July de 2020

É complicado demais escrever algo que faça referência a um momento pós-corona vírus, pois estamos justamente no meio desta onda de informações conturbadas, entre quarentena, isolamento total ou ainda pior muitos de nós sentimos que estamos perdidos e sem saber quando isso irá passar.

Perdidos, afinal temos uma certeza, nossos líderes desconhecem o caminho que devemos percorrer. Sim, também sei que não existem vencedores ou que romantizar este vírus por um suposto encontro com nossa humanidade perdida parece algo ridículo diante do cenário que estamos.

Sim, eu também sei que delegar para os lideres respostas para algo inédito como o que vivemos estes últimos dias representa apenas se ausentar do protagonismo.  Eu também sei que vivemos em uma nação polarizada que demoniza quem não é o que o outro quer que você seja. Sim, ser do contra e demonizar o outro é um novo mantra em nosso querido país que muitas vezes vive uma crise existencial do que somos.

Caro leitor uma certeza eu tenho, o que aprendemos sobre liderança em sua grande maioria terá que ser repensada. Precisamos voltar os nossos olhos para nossa humanidade, mais acima de tudo, mergulhar no universo feminino ressignificando nossa liderança.

Que bom que posso dizer isso e não ouvir das maiorias masculinas que isso é papo de mulher ou dos homens que optaram por uma opção sexual diferente da hétero. Não preciso mesmo defender o que sou, mas há anos vivo, ensino e escrevo sobre liderança. Minha crise sempre recaiu aos que muitos chamam de Sagrado Feminino.

Sim, são elas as mulheres que entendem a docilidade do amor em sua natureza mais bela. Vivem na verdade muitas vezes sem entender a profundidade da doação aos extremos. São elas as mulheres que não precisam ser iniciadas na experiência do amar, elas afinal têm potência de gerar o amor. Sim, apenas elas são capazes “se quiserem” de gerar a vida.

Ao longo dos séculos, nossas sociedades tiveram medo da força e sabedoria do feminino. Mesmo nós homens, olhamos nosso lado feminino com desconfiança.

Temos anseio de acreditar que podemos ser dóceis, amorosos e sensitivos sem que isso afete nosso masculino. Desta forma, escondemos a docilidade que podíamos ter, externando apenas a fragilidade da agressividade.

É bem complexo para nos homens, mas natural para elas. Ouvir seus sentimentos, sentir antes de condenar, ouvir mais do que falar, aceitar muitas vezes por amor ou mesmo por que elas desenvolveram uma sensibilidade que as permite apenas esperar.

Quem já não ouviu da sua mãe aquela frase, “Eu bem que te avisei”. O que seria mesmo das nossas sociedades sem elas? Bem, tenho certeza que não restaria muita coisa, isso sim seria terra arrasada.

Com medo desta sabedoria que afinal é natural delas, nós homens aprisionamos o feminino. Descartamos a opinião delas por séculos. Denunciamos como apostatas, prostitutas ou ainda bruxas em referência as mulheres que faziam o mal e não ao movimento de sabedoria das bruxas que por sinal este grupo pode ter sido um dos mais perseguidos pelos homens.

Sim, ser mulher na história da humanidade apenas teve seu reconhecimento verdadeiro quando ainda éramos nômades. Elas, nestes grupos sempre tiveram poder determinante. Criavam os filhos, cozinhavam, eram responsáveis pela liderança do grupo, poder atribuído as mais maduras e ainda detinham o conhecimento medicinal.

Nosso processo de sedentarização, algo que ocorreu na última era glacial nos tirou da África e nos levou para a região da antiga Mesopotâmia hoje atual Iraque.     

Neste processo, priorizamos a força do masculino como mais importante do que a sabedoria e a sensibilidade feminina.

Foram séculos de evolução da sociedade em que muitos movimentos matriarcais foram aniquilados pelo poder patriarcal. Entendo que não precisamos mais forjar o aço com a força do martelo mais sim ouvir o outro sem julgar com a sensibilidade do amor de quem não precisa dos olhos para ver.

Esta é a sabedoria do feminino. Esta liderança que vivência o feminino podemos chamá-la de liderança ressignificada. Provavelmente essa seja a única certeza que tenho pós corona vírus. Precisamos das mulheres mais do que nunca e precisamos urgentemente ouvir nosso feminino para que assim possamos renascer enquanto espécie.

Se é a vida que queremos colocar no centro, precisamos compreender que ela a “vida” precisa de muito cuidado, carinho e amor, não mais agressividade, arrogância ou intolerância.

Quero relembrar um momento muito importante em minha vida, quando enfim comecei a compreender melhor o feminino e a construir o que chamo de liderança ressignificada. Era novembro de 2017, estava lá eu na abertura do Web Summit em Portugal. Neste momento, na abertura do Web Summit, algo iria mudar em minha vida. A palestra inicial era dele Stephen Hawking. Em março do ano seguinte ele não mais estaria entre nós. Em sua palestra, ele falava do medo que deveríamos ter do avanço da tecnologia desde que essa fosse utilizada para o mal. Ele, falava que a inteligência artificial, aprendizado das máquinas e tantas outras inovações poderiam representar para a humanidade nossa face mais bela ou nossa face do mal. Segundo sua visão, Hawking discursava dizendo que apenas uma mudança em nossa evolução poderia atenuar esta trajetória para o mal. Deveríamos desenvolver nosso feminino evoluindo da agressividade para a compaixão. Nascendo assim em minha mente e alma o que chamo de liderança ressignificada.

Temos diante de nós uma grata oportunidade de ressignificar nossa liderança.  

Podemos sem pré-conceitos unir mais e mais homens e mulheres para mergulhar no feminino compreendendo a linguagem do amor que respeita a Gaia nossa Terra. Apenas sentindo que a verdadeira espiritualidade nasce quando reconhecemos nossa humanidade.

Não é possível reconhecer nossa essência sem olharmos com clareza para o que somos. Quando olhamos para o que somos, apenas enxergamos o que a morte não leva quando não respiramos mais, o amor.

Liderança Feminina é compreender a exponencialidade do sentir a coragem de gritar e a sensibilidade de enxergar pelo coração não mais pelos olhos. Essa é a essência da liderança ressignificada.

O mundo grita por uma nova liderança. Esta liderança não mais será uma demonstração de arrogância, ódio ou agressividade. Pode parecer utópico, mas ou compreendemos o feminino do humano ou será tarde para tentar livrar o humano da destruição que ele próprio criou.

Liderança feminina é colocar a vida no centro, pois apenas compreendendo a vida respeitaremos nosso maior bem, quem somos ressignificando assim a liderança em si.

Benício Filho
Psicanalista Clínico, formado pela Kadmon Sociedade Brasileira de Psicanálise e Coaching. Com formação em eletrônica, graduado em Teologia pela PUC SP, com MBA pela FGV em Gestão Estratégica e Econômica de Negócios, atua no mercado como empreendedor no segmento de tecnologia desenvolvendo equipes, formando lideranças e criando negócios no Brasil e em outros países. Palestrante desde 2016 sobre temas como Cultura de Inovação, Cultura de Startups, Liderança Ressignificada, Empreendedorismo, Espiritualidade e Essência, já esteve presente em mais de 400 eventos. Sócio fundador do Instituto Elaborar e conselheiro do ITESCS (Instituto de Tecnologia de São Caetano do Sul) bem como em outras empresas e associações. Lançou em dezembro de 2019 o seu primeiro livro “Vidas Ressignificadas” que mergulha em sua experiência na jornada que fez em Santiago de Compostela.