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O PROCESSO TERAPÊUTICO NA ELABORAÇÃO DO LUTO
3 de November de 2020

Mas afinal, por que temos tanta dificuldade para falar sobre o luto, a perda e a morte?

A morte ainda é considerada um tabu, principalmente para a sociedade ocidental contemporânea. Não existem muitos esclarecimentos acerca da morte, e esse tema é apresentado de maneira blindada, sequer comentada e até mesmo, repreendida.

O fato é que quando nos deparamos com a morte e com a imensa dor da perda, não sabemos como lidar com o processo do luto. Por que a morte não pode ser tratada e elucidada de maneira menos dolorosa? Se fossemos educados com uma visão mais natural desse processo inevitável, facilitaria a elaboração dessas emoções quando fosse necessário. Afinal, não falar da morte não significa que esta será evitada.

A palavra morte já traz com ela um peso, medo, incerteza, insegurança. Um momento da vida que temos certeza que um dia passaremos e obrigatoriamente vivenciaremos, no entanto, o silêncio toma conta do assunto e ao invés da busca por entendimento e diálogo, a maioria das pessoas optam por nem sequer imaginar. 

Esse comportamento evitativo do indivíduo para com a morte, a não compreensão de que esses eventos são naturais e ocorrerão no decorrer da vida de todos e até mesmo a falta de habilidade em lidar com os episódios de perdas associadas ao dia-a-dia, faz com que o indivíduo tenha ainda mais dificuldades para elaborar um luto de fato.

O luto é uma emoção primária que surge quando nos deparamos com uma perda, não somente de pessoas queridas, mas também, toda e qualquer perda relacionada a objetos de amor, sonhos perdidos, término de relacionamentos, perda de emprego e status social, entre outras situações que nos fazem sentir a dor de uma ruptura inesperada e indesejada.

Cada indivíduo tem uma maneira particular de percorrer por esse processo, o qual chamamos de elaboração e ressignificação da perda, podendo ser mais rápido ou mais demorado, com reações e emoções completamente distintas, podendo transitar entre a negação, a raiva, a negociação, a depressão, até a aceitação. Essas fases são referenciadas pela psiquiatra suíça Elisabeth Kubler-Ross (1926 – 2004) que dedicou anos de sua vida estudando as reações psíquicas dos pacientes em estado terminal, e nos trouxe respeitadas pesquisas sobre a morte e a arte de morrer, que influenciou e influencia atualmente nossas abordagens terapêuticas. 

Sabemos que de forma biológica os seres humanos passam por quatro fases que compreendem o ciclo da vida: nascer, crescer, reproduzir e morrer. No entanto, sabemos também que esse ciclo biológico nem sempre é realizado de forma completa, pois, cada indivíduo tem a sua história, que retrata interrupções seja de ordem física ou até mesmo através da morte, pulando alguma etapa ou algumas etapas. E como compreender tudo isso?

Todos nós, precisamos começar um processo de amadurecimento da relação entre a vida e a morte, e desmistificar a crença da hora certa, do justo ou injusto.

Existem fatos da vida humana que nenhuma ciência ainda conseguiu explicar plenamente, por essa razão, o que nos resta como alternativa saudável frente ao luto é reconhecer que somos seres mortais e que a morte faz parte da vivência na terra. 

E como a psicanálise pode te ajudar com esse entendimento e o processo de luto? 

Freud em 1917 escreveu sobre luto e melancolia, e trouxe o entendimento que essa dor não é insuperável e que a correta compreensão das emoções e sentimentos vividos em cada etapa do luto gera ao indivíduo um processo mais saudável até o momento que há a superação da realidade e aceitação. 

É verdade quando ouvimos o dito popular “só não tem jeito para a morte”. De fato, não há como reverter, mas há sim uma forma incrível de elaborar para ressignificar essa dor, e evoluir a compreensão que podemos sim, seguir, podemos sim, caminhar e viver a vida de forma mais leve! 

Você pode estar se perguntando, por que falar desse assunto? Eu respondo. Foi através de uma surpresa da vida onde de forma repentina tive que aprender a viver sem a minha mãe (minha vida, minha base, minha luz) e foi quando descobri a psicanálise e tive a grande sorte de ser acompanhada por um excelente profissional, que me guiou nessa luta. A partir daí consegui elaborar de forma saudável e ressignificar essa dor imensurável. Muito, além disso, tive a oportunidade de me entender cada vez mais, me conhecer e encontrar o meu propósito de vida.

E por isso estou aqui, para ser facilitadora desse processo terapêutico na vida das pessoas que estão nessa busca, associando todo meu conhecimento técnico e minha jornada de vida pessoal. Como Freud dizia, a psicanálise é a cura pelo amor, e aqui estou!

Greice Vasques
Psicanalista clínica, formada pela Kadmon Sociedade Brasileira de Psicanálise e Coaching. Cursando especialização Junguiana (Psicologia Analítica) e em interpretação de sonhos. Sócia fundadora do Instituto Elaborar. Graduada em administração com ênfase em recursos humanos, com MBA em gestão empresarial, pela FGV – fundação Getúlio Vargas, com intercâmbio em Toronto, no Canadá. Atuou nas áreas de recursos humanos, gestão de negócios e marketing em renomadas corporações, tendo como destaque atuação em projetos estratégicos de desenvolvimento e implementação de metodologias de RH, gestão de categorias, comportamento do consumidor e gestão de produtos. Através dessa jornada, conectou-se com seu propósito de vida, atuar no desenvolvimento do potencial humano.