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VALORES FEMININOS COMO CENTRO DO NOVO SER HUMANO
15 de December de 2020

O caminho se faz ao caminhar já dizia o poeta. Mas por que caminhar se torna um fardo durante nossa existência? Caímos na rotina e acabamos perdendo o sentindo do por que caminhar. Neste artigo, quero ajudá-lo na busca da compaixão compreendendo alguns sentimentos que podem reconduzi-lo ao encontro com você.

Quando somos crianças, reproduzimos em grande parte o que está acontecendo a nossa volta. O aprendizado gerado pelas relações com nossos pais, irmãos e parentes deixam marcas por toda vida. São nestes primeiros relacionamentos que iniciamos nossa compreensão do mundo que está por vir.

Sou descendente de uma grande família tipicamente brasileira. Parte materna de espanhóis que chegaram após a segunda guerra. Por outro lado, da família do meu pai, tenho no sangue a coragem dos nordestinos que desbravaram o interior do Brasil.

Entre a dureza de quem quase nada pode trazer ao Brasil, pois, partira para um novo país apenas com a esperança de recomeçar e a energia de quem queria construir uma história no Sudeste. Meu pai e minha mãe se conheceram no Paraná e tiverem quatro filhos homens espalhados pelo Brasil. Um paranaense, dois cariocas e um paulista.

Em boa parte da minha primeira infância eu apenas existia. Sobrevivia com meus pais que nada deixavam faltar de essencial e lutávamos pelas pequenas vitórias. Uma nova blusa ou mesmo um chocolate ou refrigerante era para eu e meus irmãos um belo motivo de alegria.

Minha família sempre foi marcada pela força do masculino. Os homens sempre foram os “cabeças” de quase tudo. À mulher cabia o domínio próprio da dona de casa. Minha mãe como única mulher de cinco homens meu pai e meus irmãos, cuidava de tudo e de todos sem ter reconhecido seu valor.

Como é complicado romper este ciclo quando nascemos nele e somos forjados por ele. Demorei tempo para entender que não era este masculino que eu me identificara. Sempre questionei a ausência da opinião da minha mãe nas decisões. Acabei em muitas vezes por me render a discussão, pois ela própria não queria todo o barulho sobre o tema que eu provocava.

REPRODUZIMOS O QUE VIVEMOS, ROMPER ESTE CICLO CAUSA DOR E DESCONFORTO

Os anos se passaram e desde muito cedo digo isso, pois com cerca de onze anos eu já estava envolvido com quase tudo que era permitido a mim. De movimentos dentro da Igreja Católica a organizações dentro da escola eu já era o líder ou mesmo provocador de ações.

Durante minha adolescência pude ter melhor contato com o mundo exterior e as experiências começaram fazer uma grande diferença em minha vida. Neste primeiro momento, pude começar a perceber que não seria a masculinidade do macho alfa que facilitaria minha vida, mais sim, alguns valores que com minha mãe eu havia aprendido.

Confesso não foi o momento mais fácil da minha vida. Na adolescência, temos muito o que decidir. O que fazer após o ensino médio, como começar gerar alguma renda, enfim tenho hoje quarenta e quatro anos e em minha juventude muito era cobrado de nós.

Lembro como se fosse hoje em um grupo de jovens que eu liderava dentro da Igreja quando pedi que uma das minhas amigas estivesse comigo na liderança do grupo e juntos começamos a pensar em novas ações não apenas com meu ponto de vista, mais sim, respeitando como ela via e sentia o grupo.

ESCUTA, COMPAIXÃO, PERDÃO E DOAÇÃO DE AMOR – VALORES FEMININOS COMO CENTRO DA VIDA DO HOMEM

Quando começamos este movimento em que quase que diariamente falávamos sobre os grupos que liderávamos e expressamente eu queria ouvir sua opinião e como ela via tudo que estávamos vivendo comecei a ser despertado para uma possibilidade totalmente nova.

Sou homem, crescido em um lar apenas com irmãos. Pai referência de poder e força. Bem, não fui apresentado ao universo feminino como hoje tenho consciência que compreendo. Custa caro aos homens nos dias atuais viver dentro de uma bolha achando que sua testosterona é a melhor forma de resolver aos conflitos diários aos quais somos submetidos.

Escutar é sem dúvida o maior desafio que tive. Sócrates em uma das suas andanças pela Grécia ensinando, disse que apenas quem faz a pergunta correta compreende a situação ou ainda o fato em si.

Quando perguntamos o que realmente importa, abrimos um caminho para o outro responder. Quando perguntamos, precisamos estar preparados para ouvir. A escuta assim é um dos melhores traços do feminino. Minha mãe, minha querida amiga de liderança juvenil, muito me ensinaram sobre o ouvir.

Aprendi com elas que ouvir de forma interessada faz toda a diferença não apenas na compreensão do tema em questão, mas na atenção mesmo que estamos depositando no outro com quem estamos nos relacionando.

Escutar portando foi uma das primeiras lições que aprendi nesta jornada em busca do meu lado feminino. Tenho consciência que nem sempre tive compaixão comigo mesmo durante este processo. Fui duro e impaciente. Como era possível eu não ter percebido que deveria ter dado mais atenção a todas as mulheres que já havia conhecido.

Aos poucos, fui percebendo que não era o que havia vivido que me definiria, mas minha capacidade de aprender o que eu estava percebendo.

E quando entendi que poderia ser hoje mesmo alguém melhor comecei a entender que compaixão é quando não apenas nos importamos verdadeiramente com o sofrimento do outro, mas como compreendemos que nos mesmos podemos ser protagonistas de mudanças agindo no agora e superando o que já sofremos.

QUANDO PRATICAMOS O PERDÃO VERDADEIRA ELEVAMOS NOSSA HUMANIDADE

Neste caminho em busca do meu feminino, precisei diversas vezes pedir perdão a inúmeras mulheres que tive contato ao longo dos anos. Nas relações de trabalho a busca tem sido sempre ouvir a opinião do outro, partilhar a tomada de decisão e imputar no dia a dia os conceitos relativos a este feminino.

Escutar sempre, perguntar com inteligência, antes de pensar algo ou construir juízo, olhar com o coração para a situação e ter compaixão e praticar o perdão quando necessário.

Gosto de pensar o perdão como superação jamais como esquecimento de algo que foi feito a você. Perdoar acaba sendo a minha libertação não a do outro. Quando perdoo, compreendo, elaboro e continuo minha jornada construindo meu caminho.

O desafio não está em perdoar. O desafiante é libertar seu sentimento do juízo feito e voltar a acreditar que é possível amar.

Aquela amiga de juventude, ensinou a mim a mais importante das lições. Quando verdadeiramente partilhamos sem pré-conceitos as oportunidades que temos, as decisões, as alegrias e tristezas, esvaziamos nosso ego e libertamos nossa essência.

O que estou dizendo é que vejo hoje um número enorme de homens sofrendo por não compreender seu feminino. Eles, porém, quando descobrem que podem doar amor sem que isso represente uma perda do seu masculino entram em uma nova fase e crescem enquanto seres humanos.

Escutar nunca foi forte em nós, pois, estávamos sempre envolvidos em falar. Expressar nossos sentimentos é algo novo para nós. Afinal, vivemos a nossa própria ditadura moral aonde aprendemos que nem chorar podíamos.

Tudo isso é muito novo para nós. Mas confesso. Como é bom não ter o peso da resposta para tudo, quando na verdade construir um caminho aonde mais pessoas possam estar é muito gratificante.

Por outro lado, a abertura sincera à opinião de todos criando um novo caminho para o diálogo, a prática da compaixão e a vivência do perdão possam estar sempre presentes sem que isso seja uma nova, mas sim uma nova maneira de viver.

O caminho se faz ao caminhar, não existe nada fácil. Mas hoje posso realmente dizer. Sou muito mais feliz por ser quem sou. Alguém que constrói pontes, refaz caminhos, mas sempre ouvindo quem está a meu lado.

Viver é transformar vidas. Transformando a minha, posso ser um agente de doação de amor. Afinal, é isso que o mundo precisa.

Este artigo faz parte da nossa metodologia. Em breve mais novidades virão por aí.

Benício Filho
Psicanalista Clínico, formado pela Kadmon Sociedade Brasileira de Psicanálise e Coaching. Com formação em eletrônica, graduado em Teologia pela PUC SP, com MBA pela FGV em Gestão Estratégica e Econômica de Negócios, atua no mercado como empreendedor no segmento de tecnologia desenvolvendo equipes, formando lideranças e criando negócios no Brasil e em outros países. Palestrante desde 2016 sobre temas como Cultura de Inovação, Cultura de Startups, Liderança Ressignificada, Empreendedorismo, Espiritualidade e Essência, já esteve presente em mais de 400 eventos. Sócio fundador do Instituto Elaborar e conselheiro do ITESCS (Instituto de Tecnologia de São Caetano do Sul) bem como em outras empresas e associações. Lançou em dezembro de 2019 o seu primeiro livro “Vidas Ressignificadas” que mergulha em sua experiência na jornada que fez em Santiago de Compostela.